2.3.09

Esquecemo-nos do que queríamos. Foi uma pancada na cabeça. Daquelas que agitam as meninges por completo. Uma dor lenta, mas forte, um desmaio. Uma perda de cor. Foram-se desligando fios. Um por um. Lentamente. De forma subtil, poética. As luzes apagando-se. As limpezas feitas. As mudanças também. Para o andar de cima. As luzes. Apagadas. Apenas algumas frechas de luz solar. Poeira cósmica. Subindo as escadas. A nova mesa da nova sala de jantar. Emergir ou submergir. Fundindo dimensões. Bebendo a água do mar, quando se esperava ar solarengo. Cambalhotas no ar. Reviravoltas. Sonhos perdidos. Uma camisola verde. Um corte de cabelo. Como se o nada vomitasse o mundo de uma só vez. E no lugar dele ficasse nada. Sim, que do nada não nasce nada. Como se o sentido fosse em si um conjunto de mais e menos à espera da colisão nulificante. Sim, um retrato na parede. E que mais? Um par de sapatos gasto. O sótão cheio de memórias. Mas tem-me parecido tão vazio. Procuro. Mas a busca é mais nula que o resultado. Como se me movesse no vazio. Como se tudo funcionasse à base de teletransporte. Uma busca agnóstica. Como se fosse uma tradição. Um movimento social. Uma viagem, um livro, uma relação, uma convicção. Um estado de espírito. Um carro. Uma endorfina. Uma epinefrina. Uma oxitocina. Um orgasmo. Um carro. Um vestido de seda. Uma viagem. Um dióxido de carbono. O tubo de escape. Cinzento. Fumo. Quero. E sempre que me deito, aconchego-me nos lençóis enquanto abro o livro na página de ontem. Leio três páginas. Ouço-te falar. No carro. Não sei o que dizer. Nem sei o que me dizer. Gostava de te poder dizer sim, não, talvez. Apenas me sai sabedoria popular. Eu também não sei. É-me indiferente. Tudo. Sim, tudo. O moral perdeu o seu valor. Fundi demasiadas coisas. Morreu. Morreu o meu amigo imaginário. Tento lembrar-me dos seus conselhos. Tanto que mudou. Os sapatos, por exemplo. Saio com eles, sempre certos. Um passo de cada vez. Por vezes dois. Os carros passam, as pessoas passam. Não as suporto. Demasiadas colisões. Preciso de descansar a minha vista na tua. E jantes a sair, a passear pelo passeio. Sonhos. Sim, jantes.
Não quero construir nada que não possa ver. E tu cegas-me.

3 comentários:

Daniel Silva disse...

Arriscando um neologismo pleonástico, há textos que não são comentáveis.

Mas enfocaria isto:

"Esquecemo-nos do que queríamos. Foi uma pancada na cabeça. (...) Uma dor lenta, mas forte, um desmaio. Uma perda de cor. Foram-se desligando fios. Um por um. Lentamente. De forma subtil, poética. As luzes apagando-se. As limpezas feitas. As mudanças também. Para o andar de cima. As luzes. Apagadas. Apenas algumas frechas de luz solar. (...) Emergir ou submergir. Fundindo dimensões. Bebendo a água do mar, quando se esperava ar solarengo. (...) Reviravoltas. Sonhos perdidos. Uma camisola verde. Um corte de cabelo. Como se o nada vomitasse o mundo de uma só vez. (...) Sim, um retrato na parede. E que mais? Um par de sapatos gasto. O sótão cheio de memórias. Mas tem-me parecido tão vazio. Procuro. (...) Como se me movesse no vazio. Como se tudo funcionasse à base de teletransporte. Uma busca agnóstica. Como se fosse uma tradição. Um movimento social. Uma viagem, um livro, uma relação, uma convicção. Um estado de espírito. (...) E sempre que me deito, aconchego-me nos lençóis enquanto abro o livro na página de ontem. Leio três páginas. Ouço-te falar. No carro. Não sei o que dizer. Nem sei o que me dizer. Gostava de te poder dizer sim, não, talvez. (...) Eu também não sei. É-me indiferente. Tudo. Sim, tudo. O moral perdeu o seu valor. Fundi demasiadas coisas. Morreu. Morreu o meu amigo imaginário. Tento lembrar-me dos seus conselhos. Tanto que mudou. Os sapatos, por exemplo. Saio com eles, sempre certos. Um passo de cada vez. Por vezes dois. Os carros passam, as pessoas passam. Não as suporto. Demasiadas colisões. Preciso de descansar a minha vista na tua. E jantes a sair, a passear pelo passeio. Sonhos. Sim, jantes.
Não quero construir nada que não possa ver. E tu cegas-me."

abraço

Heartbeats disse...

O que é um neologismo pleonástico? eheheh

abraço :)

Daniel Silva disse...

Quando fores convida-me... ;)

Neologismo porque tinha acabado de inventar, e pleonástico (vem de pleonasmo) porque ao dizer "comentável" nem sei se existe a palavra ;)

hugs